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/ pp 161-175 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 – NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
ou som combinado à narrativa. O som traz veracidade à história narrada. Essa é a exclusividade da magia sagrada do
som. “Atribuiu-se seu poder justamente à ausência da imagem, poder este que reside na sua capacidade de ativar a
imaginação visual, onde nada é visto, somente ouvido, e a mente de cada um encarrega-se de criar as imagens que
correspondem ao som” (Filho,2015, p. 62).
Por vezes, todavia, o som vindo de um artefato atemporal, como o podcast, assumiu e tem assumido um protagonismo
de igual reconhecimento e valor como dado à imagem em tempos de pandemia. Ver entre telas não se fazia suficiente
para aproximar as pessoas, despertar um sentimento de pertencimento, de afetuosidade. Talvez, por isso, o podcast
teve comparativamente ao surgimento desse artefato (2004) um crescimento exponencial na época da Covid-2019.
A voz passou a ser um “sonho de consumo” para quem pretendesse se comunicar, visto que a comunicação é dialógica
e se dá de um para muitos, no caso da comunicação de massa, ou, via internet, de muitos para muitos. O uso do
artefato podcast tem se democratizado para além dos campos relativos às mídias em áudio e audiovisual. O uso
educacional também se desenvolveu ao longo dessas duas décadas nesses e vem conquistando adeptos tanto da
audiência, quanto da criação. Com as pesquisas com os cotidianos não foi diferente. Improvisamos uma maneira de
continuar a partilha das pesquisas e de criar nossos artefatos curriculares. Os encontros, para conversar sobre filmes
e textos, passaram a ser on-line, por meio de plataformas de streaming. E percebemos que o podcast também poderia
ser realizado nesse espaço.
A docência no período pandêmico precisou se reinventar para que fosse mantido o elo afetivo. Mais do que uma
programação curricular, o que mais buscávamos era atenção e afeto. Embora, às vezes, não estivéssemos visíveis,
com câmeras desligadas, microfone desativados e conexões que “caíam”, voluntária ou involuntariamente, estivemos
dentro das casas dos estudantes e eles dentro do nosso lar também. Apesar de gestos de interação “instáveis”, porque
“fora de lugar”, e embora não pudéssemos ouvir todos os passos, mesmo de frente para os alunos, muitos continuavam
a fazer muitas coisas enquanto logados nessas plataformas. A falta do som foi imensamente mais difícil de suportar do
que a falta da imagem. O silêncio nos pátios da escola, nas ruas, foi difícil demais, como relatam integrantes do nosso
grupo que atuam em sala de aula. Depoimentos veiculados no
podcast
do grupo de pesquisa destacam os vazios que
sentiam quando iam às suas escolas. Se o registro em imagens e texto pode ajudar a repensarmos o futuro, todavia, o
registro dessas vozes em nossas conversas sobre esses sentimentos também. Naquele momento, porém, fez-se a
mágica do contato, da conversa, do estar juntos, de pesquisar junto. E interceder. Não estamos isolados um dos outros,
ao contrário, estamos muito unidos. Desde então, há 5 anos.
Em nossa pesquisa, o podcast tem sido pensado como um artefato tecnocultural que se torna um artefato curricular.
Usamos esses artefatos, em nossas pesquisas e em disciplinas de mestrado e doutorado, tanto como indicação de
escuta para ‘conversas’ em torno dos episódios com os ‘
praticantespensantes’
dessas redes, quanto na produção de
conteúdo para esses episódios. A apropriação sociocultural dos meios de comunicação de que nos fala Serpa (2012),
ao refletir sobre lugar e mídia, mostra lugares de ocorrência de iniciativas populares que encontram possibilidades de
fazer usos desses meios, como plataforma, articulando lugares com o mundo. O
podcast
é a possibilidade de qualquer
pessoa, inclusive, estudante e professor, de montar a sua “rádio”. A viabilidade financeira da produção, assim como a
sua disponibilização on-line sem custos, é uma das razões do
podcas
t se tornar popular nos últimos anos. Além disso,
não podemos nos esquecer do apreço do público pelas narrativas. Os usos que fazemos dessas produções sempre
instigaram os estudos com os cotidianos a pensar os ‘
espaçostempos’
de produção dos ‘
praticantespensantes’
. Sandra
Kretli da Silva (2020), em conversas num podcast, ressalta que essas criações e afecções são “linhas de fuga” que
“oxigenam” a vida dos professores dia a dia e que impulsionam os processos criativos, assim como a importância dos
encontros na vida dos professores ‘
dentrofora’
da escola.
Entendemos o podcast enquanto esse artefato cultural que serve como um ambiente de encontro para o fabrico de
táticas, bricolagens, artes de dizer e de parodiar, a “Arte de conversar e jogar com [o] inevitável dos acontecimentos
para torná-los habitáveis” (Certeau, 2014, p. 49). Por isso, para além da imprensa, museus, casas de culturas,
movimentos sociais, educadores têm encontrado nos
podcasts
uma maneira de fazer circular suas narrativas. Nesse
sentido,
‘podquestar’
passa a ser um convite à conversa, o
locus
das pesquisas com os cotidianos.
‘Espaçostempos’
de encontros, nossos, conosco, com os convidados participantes, e, com os ouvintes, em qualquer local onde estiverem.
Nas oficinas que realizamos, tanto em projetos para escola básica, quanto à formação de professores, e para docentes
em formação, produzimos podcasts. São ensaios curriculares produzidos coletivamente para difundir os outros usos do
som e o seu uso nas pesquisas em educação. Dessa forma, como nos diz o autor de “Improvisação na Vida e nas
Artes”, improvisa-se em uma simples conversa. “La forma más común de improvisación es el lenguaje común"