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/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 – NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Portanto, o corpo de que trata Merleau-Ponty (1999; 1984) é o corpo que não tem uma alma de natureza distinta, que
não é um “[...] amontoado de carne, músculos, sangue, ossos e pele, uma coisa entre as coisas, uma máquina receptiva
e ativa que pode ser explicada por relações de causa e efeito [...]” (Silva, 2021, p. 132). Ele é um visível/vidente, um
tocante/tocado, sensível/sentinte, enfim, ele é visível e sensível para si mesmo. Ele está atado ao mundo, na medida
em que não há possibilidade de existir sem o mundo e nem o mundo sem ele; “[...] eles estão numa relação de
enlaçamento constituindo-se em duas verticalidades que têm a carne como uma espécie de superfície de contato ou
visibilidade” (Idem, p. 125). O cuidado dentro da perspectiva da corporeidade, não se reduz a cuidados físicos, ou
biofisiológicos, mas desdobra-se a partir do corpo próprio, esse corpo que sente, que cria, que imagina, que pensa, que
tem afetos, que não pode ser pensado em separado de seu ambiente, mas de forma entrelaçada a ele.
Historicamente, na maioria das sociedades antigas, a imagem da mulher está associada à função de cuidadora. Função
pautada na ideia de fertilidade, procriação e amamentação. Afinal, lhe cabiam os cuidados com a alimentação, com a
higiene, com a saúde. Aos homens competiam a caça, a pesca e a defesa dos territórios; eram responsáveis também
pela confecção e pelo uso de instrumentos de guerra, de agricultura, e pela criação dos instrumentos para a reparação
do corpo mutilado pelas guerras e acidentes no trabalho agrícola (Collière, 1999). Para Hirata (2012, p. 284), essa visão
parece ainda ser mantida, quando afirma que “embora diga respeito a toda a sociedade, é efetuado principalmente
pelas mulheres; e a análise da divisão sexual do trabalho do "care" tanto no interior da família quanto nas instituições
de cuidados ainda está por ser feita”.
Na Idade Média, com os serviços das irmãs de caridade nos hospitais e dispensários, as práticas de cuidados lhes serão
confiadas e irão se destinar aos mais necessitados. Elas cuidam das crianças, dos doentes e dos velhos, e também
ficam incumbidas da alimentação, da higiene, dos remédios. Daí surge seu conhecimento das ervas, das plantas
curativas (Collière, 1999).
A partir da revolução industrial, se intensificou problemas de natureza sociais com os aglomerados de pessoas vivendo
em condições precárias nos centros urbanos em busca de trabalho. “A expansão mundial da economia burguesa, a
migração dos povos e a dominação cultural europeia que deles sobreveio foram o sustentáculo para o estabelecimento
definitivo do capitalismo industrial, a partir do séc. XIX” (Geovanini; Moreira; Scholar; Machado, 2002, p. 21). Esse
quadro ocasionou problemas sanitários e comprometeu a saúde pública, ameaçando não só a vida dos/as
camponeses/as, agora transformados/as em recém operários/as, mas também a vida da classe dominante. “O Estado
passa então a assumir o controle da assistência à saúde como forma de garantir a reprodução do capital, restabelecendo
a capacidade de trabalho do operariado” (Geovanini; Moreira; Scholar; Machado, 2002, p. 22). O cuidado passa então
a ser direcionado para um controle corporal ligado à capacidade de produção. Os corpos interessam à medida que
podem realizar trabalho. A medicina, dentro desse cenário, torna-se uma forma de controle e disciplina, exercendo o
que Foucault (1988) chamou de biopoder, atrelado ao fortalecimento da biopolítica (criada pelos Estados para gerir e
controlar à população).
Observa-se, na sociedade capitalista uma tendência comum a considerar o cuidado com o único fito de cuidado
corporal, criando as condições fisiológicas necessárias que servem para formar a disposição para o trabalho
(biopolítica), fortalecido pela ilusória ideia do cuidado com a saúde (biopoder). Por outro lado, ainda que essa
compreensão do cuidado seja priorizada e idealizada, a efetivação não atende a demanda. Observa-se que em países
em que a pobreza é alta, o cuidado é ainda muito precário, o que incide na emergência de políticas públicas para
diminuição das desigualdades e da proteção social. Ainda que o interesse não seja exclusivamente voltado para as
questões de cunho que envolvem o cuidado humano, essas desigualdades afetam também a economia, uma vez que
precariza os serviços. Segundo dados publicados pelo Relatório do Panorama Social da América Latina e do Caribe
(2024, p. 13): “A estimativa da pobreza está estreitamente vinculada com a renda gerada no mercado de trabalho”. O
relatório supracitado também apresenta dados acerca do percentual de desigualdade de distribuição de renda,
afirmando que “as percepções de injustiça distributiva se mantiveram muito altas na América Latina, em valores
próximos ou superiores a 80%” (CEPAL, 2024, p.13). O relatório ressalta a importância da proteção social não
contribuitiva, como medida de superação da pobreza. “Erradicar a pobreza na infância e na adolescência é um
imperativo de direitos e um tema medular para avançar rumo ao desenvolvimento social inclusivo” (CEPAL, 2024, p.14).
A educação mesmo não sendo exclusivamente uma medida de superação da pobreza, é sem dúvida uma dessas
medidas. E pensar em seus pressupostos é um ponto fundamental na direção dessa superação. Hoje, observa-se que
ela critica os direcionamentos e desdobramentos de uma perspectiva pautada na formação que prioriza a
intelectualidade a criticidade, porém, ainda mantém, mesmo de forma tangenciada, muito desses corolários, uma vez
que, enquanto herdeira da modernidade, resguarda muito de seus conceitos, de seus pressupostos, o que implica que