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/ pp 81-96/ Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 – NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Encerrar este percurso é reafirmar que não há fim, mas continuidade. Minha pesquisa e minha narrativa se entrelaçam,
atravessadas pelas minhas Íyás, pelas vivências e memórias que me constituem. Ao fazer essa narrativa as celebro,
semeando seus saberes e caminhos para que a herança ancestral feminina de axé siga viva em nossos cotidianos.
Somos nossas ancestrais ontem, hoje e amanhã (Machado, 2019, p.26).
Quilombosquintais
onde cabem o mundo: palavras escritas e transmitidas na Rua Basileia, Rio de Janeiro
Arrisco-me a tecer algumas memórias de retalhos do que aprendi no quintal de minha avó paterna, Maria Honorina.
Quintal que tenho gostado de chamar
quilomboquintal
, em diálogo com a concepção de quilombo defendida por
Beatriz Nascimento (2006), em que mesmo na contemporaneidade, pessoas negras se encontram, reconhecem e
articulam em movimento de seguir existindo, com dignidade. Em seu quintal, localizado na rua Basileia, lote 9,
quadra 10, no município de São Gonçalo, Rio de Janeiro, onde minha avó construiu a casa que abrigou e acolheu
seus filhos e no
quilomboquintal
gestado por ela, que mais tarde acolheu também as famílias de seus filhos. Terra
que avó Honorina adubou com suas mãos, onde eu e demais crianças de minha família e da favela pudemos
experimentar, dentre as complexidades da infância, o direito à brincadeira e a tempos de alegria.
Em diálogo com Nunes (2016), esboço memórias de uma infância negra viva, cheia de desejos, afetações,
perguntas:
Mãe, que livro é aquele que minha avó está carregando?
Era um livro grande, preto, não parecia conter
muitas páginas. Era carregado por minha avó paterna, Dona Maria Honorina, uma mulher de pele preta, velha, de
estatura baixa, ainda não tão curvada como nesses dias de agora, que vaidosamente pintava seus cabelos de preto
a fim de não deixar nenhum fio branco à mostra. Era comum, quando carregava esse livro, estar vestida com uma
blusa estampada com a imagem de Nossa Senhora da Conceição e uma saia preta que media abaixo do joelho.
Avó Honorina e seu livro. Que palavras estariam por trás daquela capa preta? Será que havia fotografias e pinturas?
Eram indagações de eu-criança. Vovó era integrante da Legião de Maria e do grupo das/os franciscanas/os, na
Paróquia Nossa Senhora da Conceição, do Engenho Pequeno, e na Igreja Nossa Senhora de Fátima, no Barro
Vermelho. Aquela igrejinha, no alto da rua depois da ponte, que nunca soubemos o nome porque chamávamos a
região de Capelinha, foi lugar de sociabilidade valioso em meus tempos de menina. Inclusive, depois que a Capelinha
virou Paróquia, vó Honorina sempre nos chamava atenção quando nos referíamos ao lugar como Capelinha:
Capelinha não! Paróquia!
Mas não tinha mais jeito, Capelinha era nossa forma habitual, e carinhosa, de chamar
aquele lugar.
Padre Jorge, senhor branco, velho, de cabelos brancos, era referência de autoridade para as crianças que
frequentavam a Paróquia. Tremia de medo quando os mais velhos ameaçavam contar ao padre minhas constantes
desobediências. Havia um tempo, lá pelos meus 6 anos, em que as pessoas adultas da minha família eram mais
assíduos nas missas de domingo. Nessa época, as crianças da minha rua se inscreveram para a catequese.
Confesso que não gostava de assistir às missas, sempre fui criança agitada, e a ideia de passar intermináveis
minutos sentada, atenta ao padre, não me agradava nem um pouco. Mas minhas amigas estariam na catequese!
Bastou isso para que quisesse ir também.
Lembro-me que nossas mães organizavam-se e cada uma levava o grupo de crianças à catequese aos sábados
pela manhã. Para mim, menina-criança, os melhores momentos eram o caminho de ida e o caminho de volta.
Descíamos a Basileia brincando, cruzávamos a rua do meio, até chegar à ponte. Ela era bastante enferrujada, e
embaixo tinha um fiapo de rio, que um dia foi rio, e naqueles tempos já era esgoto. A aventura de passar pela ponte
com todo cuidado, junto às demais crianças, era quase o auge de meus sábados de catequese.
Acontece que, aos poucos, as outras crianças completaram a primeira comunhão. Minha amiga coroou a imagem
de Nossa Senhora da Conceição, em oito de dezembro daquele ano. Por ser mais nova, eu precisaria ficar mais um
ano na catequese. O tal ano começou, e inventaram até de celebrar uma missa para as crianças aos sábados, após
as aulas de catequese. Caminhar sem minhas amigas até a Paróquia e ao final da manhã ainda assistir às missas?
Foi demais para minha menina-criança. Saí da catequese.
Vovó Honorina ficou decepcionada. Ela era bastante comprometida com a religião. Comparecia a todas as reuniões
dos grupos de oração e nunca faltava às missas. Minha avó Honorina tinha duas cicatrizes redondas em seus joelhos,
do hábito de rezar.